Histórias de África – Que força tem mais força?

À sombra de um Imbondeiro

Muitos e muitos anos atrás, lá em Benguela minha terra natal, costumava acompanhar meu sábio e amigo avô Batista, conhecido na cidade pelo apelido de Tónio migo, nas suas lides diárias no ofício de trabalhar a madeira e nas entregas do resultado do seu trabalho. Achava muito interessante essas horas, pois ouvia com muita atenção as histórias que ele contava das suas experiências de uma vida intensa e em particular, eu dedicava especial interesse, quando ele compartilhava ou comigo ou com seus amigos e clientes, aliá, ele não tinha clientes mas amigos, sua experiência pela selva angolana. E invariavelmente nestes casos sempre se referia, ao velho N´gola Kiluanje, um sábio muito respeitado e sempre consultado pelos nativos das tribos vizinhas, que vivia isolado do mundo na anhara de Quilengues território dominado pelos leões.

Só esse fato, já dava asas à minha imaginação e respeito a tal “makulo”!!! Agora imaginem como fiquei quando meu avô um dia me disse, hoje vamos a Quilengues! Sabia que sempre que ele ia a Quilengues passava na cubata isolada do velho sábio. Bom, não preciso nem dizer a ansiedade que tomou conta de mim naquele dia, não via a hora de voltarmos a Benguela e nos desviarmos para dentro da savana, apreciando com sorte alguns leões descansando na sombra das raras árvores, mas principalmente para eu finalmente conhecer tão importante figura. Se meu avô já era um sábio imagina como seria quem ele considerava o Xinganje mais sábio de Angola!!!!

Bom, mas vamos ao que interessa, desculpem, mas o acumulo de anos nos faz dar cada vez mais importância aos detalhes da vida e saborear os meandros mais escondidos da nossa memória, é isso que faz a diferença entre um velho conhecedor e um velho sábio e infortunadamente não nos apercebemos disso. O quanto é bom e proveitoso, transformar o poder do conhecimento acumulado mais que a maioria de nossos semelhantes em sabedoria tal qual uma brisa de fim de tarde de verão que nos envolve e acalenta sem forçar e sem se impor.

Ao chegarmos perto do imponente imbondeiro, rasgando o céu com seus galhos enormes e anárquicos, qual raízes querendo se agarrar na plenitude dos céus! Meu avô me sinalizou para que fizesse silêncio e me sentasse junto com os kandengues que já lá estavam tão absortos em ouvir o velho sábio que quase nem deram pela nossa chegada. N’gola Kiluanje, sentava encostado ao enorme tronco, de cócoras como sentam os africanos, e falava pausadamente, doce mas seguro e firme como deve ser a voz de um sábio, de um verdadeiro mestre da vida. Ele contava aos mais jovens com foi a criação das estações do ano. Nunca mais me esqueci do que ouvi e é isso que gostaria de compartilhar com vocês.

“No início do mundo Deus fez apenas duas estações do ano, tal qual o dia e a noite, o inverno e o verão, achava Deus na sua magnitude que seria suficiente, mas um fato inesperado fez Deus rever sua criação. Inverno e Verão começaram a disputar entre si qual deles seria a estação mais importante e a preferida do homem, pois foi essa a incumbência que lhes foi atribuída, Servir ao Homem e à Natureza. Chegaram os dois perante Deus reivindicando mais meses para cada estação além dos 6 que foi destinado a cada um. Deus perguntou-lhes, mas porque essa disputa? Vocês duas têm igual importância, estão questionando minha obra? Mas não houve argumentos que fizessem tanto o Inverno como Verão, desistir de querer provar a Deus a maior importância de cada um deles. Bom, mesmo já sabendo o desfecho de tudo Deus consentiu em realizar a disputa. Disse para elas, estão vendo aquele pequeno homem lá embaixo? Pois então, usem todos seus poderes e veremos quem, por si só fará do homem e da natureza à sua volta, feliz, realizado, vibrante, alimentado, dono de seu destino e utilizando plenamente os recursos que lhes concedi. O Inverno começou sua atuação, soprou um vento frio que fez o coitado do homem quase paralisar sua caminhada, apertar seu passo, se proteger com roupas pesadas mas mesmo assim continuou. Depois do vento, Inverno usou de todas as suas armas, chuva granizo, ventos mais fortes e fortes, nosso homem e a natureza à sua volta eram só destruição e enchente, e cada vez mais o Inverno, raivoso por não ver o homem nem a natureza satisfeitos, vinha forte e forte. Aí Deus disse, pare!!! Sua vez terminou. Verão vendo aquilo, achou que estava ganha a disputa, e veio com tudo, calor causticante, seca, plantas morrendo, a terra abria sulcos implorando por água, nosso coitado homem se arrastava sedento e delirante. Claro que no começo da ação do verão foi muito bom, depois de neve, enchentes, chuva e frio nada melhor que um vento quente, um calor revigorante e agradável, mas à medida que o verão se achava forte e seguro e usava de toda a sua força isso se tornava cada vez mais insuportável, até que Deus disse chega!!! Acabou sua vez Verão! Virando-se para os dois disse, viram seus orgulhosos? Se eu os fiz diferentes é para que usem suas forças de forma complementar, a Natureza e o homem precisam da integração das duas estações, precisamos ter a gama toda desde o mais frio do invernos até ao mais quente dos verões, sempre atuando num ciclo regular e contínuo de ação conjunta e terminando disse, como castigo vou dividir cada um de vocês em duas metades para que nunca mais sejam abruptos e radicais, passaram a existir também a primavera e o outono para que o ciclo da natureza se faça de forma suave e gradual.”

Bem, meus amigos, tenho quase certeza que o velho sábio descreveu esta parte da criação do mundo de maneira mais sábia, interessante e motivadora que eu, mas infelizmente ainda não atingi tal grau de sabedoria e foi apenas isso que ficou em minha memória.

Mas tudo isto me veio à memória ao perceber que em certas empresas não existe a diversidade que gera o dinamismo da inovação nem, no caso da diversidade de competências da equipe estar presente, unificar e direcionar essa diversidade, gerar a unidade na diversidade com foco no mercado, no cliente. Esse desafio de gerar a unidade é a parte mais importante do papel do empresário, do gestor, do líder do empreendedor. Como criar essa unidade de propósitos? Esse é o desafio de qualquer empresário, líder os gestor. Mas isso é assunto para outro dia.

Podemos também refletir, qual a maior força que pode movimentar nossos colaboradores? A força bruta de um vendaval ou a brisa suave de um fim de tarde na beira da praia?

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